sexta-feira, 2 de julho de 2004, by Fabricio S.

Texto Non Sense nº 2345meia78

Naquela terra inóspita e sombria a escuridão tornava-se ainda mais evidente. E naquele maldito local morava apenas uma pessoa, o Sr. Olavo. Ele era uma pessoa rica, fria, sem amigos e amante da literatura gótica, da qual colecionava milhares de livros. Por anos e anos Sr. Olavo ali passou seus dias e noites, sem nunca ter reclamado das supostas maldições que o povo insistia em atribuir ao seu casarão, localizado no pico de uma floresta de árvores mortas. Talvez por isto mesmo tenha sido tratado sempre com muito respeito pelos cidadãos quando fazia suas raras visitas ao centro da cidade. No fundo, todos tinham medo de Sr. Olavo, que sempre vestia-se de sobretudo e usava uma forte maquiagem preta ao redor dos olhos. Diziam as más línguas que Sr. Olavo era a reencarnação de Drácula. E mesmo sendo puro folclore, assim que anoitecia todas as pessoas, até mesmo os mais cépticos, trancavam-se em casa, com medo de Drácula sair de seu casarão e chupar seu sangue. Isso não chega a ser um exagero, já que a "floresta morta" era um lugar realmente assustador. Mas nada incomodava Sr. Olavo, um gelo de pessoa, que só sentia o tempo passar com a leitura de seus livros.

Anos passaram-se, e nada mudou. Aliás, apenas uma coisa mudou na vida de Sr. Olavo: com o advento da Internet, ele poderia comprar livros sem sair de casa, nunca mais teria que olhar para o rosto amedrontado daquele cidadão adiposo da livraria. Finalmente Sr. Olavo estava realizando seu sonho de viver até morrer dentro de seu casarão, o seu refúgio do mundo exterior que o temia. Mas numa noite, tudo mudou. Eram 19hs, as corujas e os lobos já uivavam na floresta enegrecida, clareada somente pela fraca luz do luar encoberto por nuvens densas e cheias de mistério. Como de costume, Sr. Olavo lia um de seus livros sob a luz de um castiçal, quando de repente ele ouviu um barulho estranho do lado de fora da casa. Aproximou-se da janela, e nada viu. Tranqüilamente, o velho pôs-se a ler novamente. Mas alguns segundos depois, uma voz fraca e trêmula entrou nos ouvidos de Sr. Olavo:
-Olaaaaaaaaavo... Olaaaaaaaaaavo...
Pela primeira vez em sua vida, Sr. Olavo tremeu. Pode-se dizer que, literalmente, ele trancou o cu. Muito nervoso, abriu a porta da sacada, olhou ao redor de seu casarão, e nada viu além das sombras sinistras das árvores mortas. Ele estava muito nervoso mas, mesmo assim, decidiu descer as escadas e vasculhar o primeiro andar. Mas antes mesmo de por o pé no primeiro degrau da escada, ele ouve novamente a voz sinistra e amedrontadora:
-Olaaaaaaaaavo! Olaaaaaaaaaavo!
O susto foi gigantesco, tanto que o velho rolou escada abaixo. Só quando chegou lá embaixo percebeu que estava com muito medo, e que a única coisa que queria do seu lado era alguém para defendê-lo e abraçá-lo. Por alguns segundos ficou deitado no chão, pensando que a sua fixação por literatura gótica e temas satânicos havia atraído o "Coisa Ruim", que estaria disposto a tomar sua alma. Desesperado, o velho olhou para o céu e pediu a Deus que o salvasse do Capeta. Mas Deus parece não ter escutado-o, e novamente ecoou na casa aquela voz:
-Olaaaaaaaaavo! Olaaaaaaaaaavo!
Foi demais para ele. O velho durão, frio e sem escrúpulos estava encolhido atrás da enorme mesa de jantar, e chorando. Mas por um instante, lembrou-se de um antigo livro, no qual descrevia uma fórmula que afugentava o Demônio da vida das pessoas. Desesperado, Sr. Olavo foi correndo até sua gigantesca cozinha, onde revirou tudo até encontrar o que precisava: azeite de oliva e erva-doce, que, ao serem colocados próximos da porta de entrada da residência, fariam qualquer Demônio desaparecer para sempre. E assim o velho fez. Nenhuma voz foi ouvida. Sr. Olavo ficou aliviado. Mas alguns segundos após ter colocado a "macumba" na porta, ele ouviu de novo a voz sinistra, mais alta e forte do que nunca:
-Olaaaaaaaaavo! Abra a poooorta!
Cabisbaixo e certo de sua morte, Sr. Olavo caminhou até a porta, botou a mão na maçaneta e, antes de abrir, falou:
-Tomarás agora minha vida, ó Senhor dos Senhores. Mesmo com todo o feitiço, não fui capaz de deter-te, és o mais poderoso. Não era minha intenção chamar-te ao mundo dos vivos, mas assim o fiz, sem pensar. Recompensando-te, toma agora minh'alma amedrontada por tua presença, ó divindade maligna.E após seu trágico discurso, o velho abre a porta, e se depara com um sujeito todo sorridente e vestido de amarelo, que diz:
-Sr. Olavo? Sedex pro senhor, é um livro!


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Nenhuma mongolice! Que derrota!