terça-feira, 15 de junho de 2004, by Fabricio S.

Texto Non-Sense nº 3,1415

Edinho

Edinho é um homem bem sucedido, pai de família e feliz. Mas desde criança sofre com um latrinário vício: ele come meleca. Quando pequeno, brincava na chuva de propósito, com a esperança de ficar gripado para ter o nariz escorrendo. Sua mãe sabia do problema, e levou-o a vários especialistas que indicaram diversos tratamentos, mas todo foram em vão. A única coisa que a mãe de Edinho podia fazer era ensiná-lo a não comer na frente de outras pessoas. Bem que ele tentou, mas seu vício o consumia. Fosse em casa, na escola ou no elevador, lá estava o menino com um dedo no nariz e outro na boca. Tais atitudes deram a Edinho um apelido não muito agradável: Melequento. Edinho não gostava de ser chamado assim, e sempre tampava na porrada com os coleguinhas de classe que zombavam de seu hábito. Passou a infância e chegou a adolescência. Todos seus amigos estavam lá, curtindo as menininhas, e ele era excluído, já que nenhuma garota sequer pensava em beijar o Melequento.

Nas férias do colégio, Edinho decidiu viajar para outra cidade, onde as pessoas não saberiam de seu vício asqueroso. E prometeu a si próprio que tentaria controlar-se diante de outros seres humanos. O pobre menino ficou hospedado em um albergue para jovens. Edinho tinha a sorte de ser atraente, e logo chamou a atenção das menininhas. Uma moreninha baixinha e de olhos verdes investiu pra cima de Edinho e beijou-o. Nossa, era o primeiro beijo do Melequento! E ele ficou ali, saboreando aquele beijo delicioso e grudento. Mas Edinho não sabia que beijo na maioria das vezes não gruda. Ele abriu os olhos e viu a garota afastar-se com uma cara de satisfação:
-Nossa, o que é isso na sua língua?!
-Errr... eu não sei!
-Sua língua está grudando... e está com um gosto maravilhoso! O que é isso? Chiclete?
Então Edinho percebeu o que havia ocorrido. Toneladas e toneladas de meleca estavam grudadas na sua língua, e o pior é que a menina havia gostado do sabor. Ela voltou a falar:
-Edinho... você tem um gostinho de quero mais! Que pasta de dente é essa?!
Melequento não sabia o que falar, muito menos inventar uma marca de creme dental. A menina ficou maluca, estava apaixonada pelo rapaz da meleca. E passaram a noite inteira se curtindo. Edinho estava confuso. Como poderia o produto de um vício visto como nojento e doentio pela sociedade atrair uma mulher de tal maneira?

O tempo passou, as férias acabaram e ele teve que voltar à sua cidade, fato que arrasou a menina do albergue, que pediu para que ele voltasse no próximo ano. Já em casa, Edinho decidiu estudar os efeitos de sua meleca. Assoou o nariz em um rato macho e colocou-o perto de outras ratinhas. Como num passe de mágica, todas as ratinhas estavam doidas para "ficar" com o rato. Heureca! Edinho estava produzindo o elixir do tesão! Agora o Melequento estava disposto a seduzir as meninas que antes o rejeitavam. E toda hora, quando seu vício fazia-o meter a mão no nariz ele lembrava-se de seu plano. Tirava a meleca e, em vez de comê-la, guardava num potinho. No final de cada dia, Edinho conseguia cerca de 50 gramas de meleca. Passados 10 dias, Melequento pegou o meio quilo de meleca que havia poupado e colocou-o escondido no liqüidificador de sua mãe. Ligou. A coisa foi misturando, misturando, até o amarelo ter unido-se com o verde. Desligou e despejou o conteúdo em uma garrafa de plástico. Finalmente ele possuía bastante elixir do tesão para conquistar as meninas. Botou sua garrafinha na mochila e foi para a escola. Como de costume, todos caçoavam do Melequento, principalmente as meninas. Hora do intervalo. Melequento pegou sua garrafinha e foi para o banheiro. Tirou a tampa e passou a pasta no cangote. Respirou fundo e sentiu que tratava-se da mais pura meleca. Nessa hora, seu vício foi mais forte que ele, e Edinho acabou metendo a boca na garrafa e engolindo o resto do produto. Mas tudo bem, ele já havia passado na nuca, e agora sua língua estaria mais grudenta do que nunca. Saiu do banheiro e, propositalmente, passou perto do grupo das menininhas. Mas nada aconteceu. Puto da vida, Edinho forçou a barra e meteu um beijão de língua em uma colega, que afastou-se rapidamente, sentiu a enorme quantidade de meleca em sua boca e vomitou ali mesmo. Melequento não entendeu porque não havia dado certo, e começou a correr quando viu que as outras pessoas queriam bater nele. Triste e condenado à exclusão social ficou. Mas ele não se conformava porque a moreninha do albergue gostou tanto da meleca, assim como os ratinhos.

Chegaram as férias de meio de ano, e Edinho decidiu voltar para o mesmo albergue de antes. Chegou lá, a mesma menina reencontrou-o, e começou o assédio e a pegação outra vez. Mas Melequento estava curioso demais para saber porque essa menina gostava tanto dele. Não mais suportando, ele falou:
-Olha fofinha, tenho um segredo para revelar...
-Fala, gatinho gostoso!
-Eu não uso creme dental especial ou qualquer outra coisa do tipo, na verdade... bem...
-Conta, querido!
-Eu tenho mania de comer meleca! É isso! Daí a meleca gruda na língua e é por isso que gruda!
-Ah, é isso? Tudo bem, fofinho!
-Como assim tudo bem?! Vocês não tem nojo de mim?!
-Ora, é claro que não, bobo!
-Quer dizer que se eu comer meleca agora você não se importará?
-Não! Bem... para falar a verdade, eu também tenho um vício.
-Eu sabia, você tem mania de botar o dedo na boca e ficar chupando! Eu já tinha reparado, mas não queria te falar...
-Bom, não é só na boca...

E a partir desse dia Edinho sabia que havia encontrado o amor de sua vida. Hoje Melequento tem vinte e seis anos e continua comendo meleca, mas está feliz e casado com a linda moreninha de olhos verdes que bota o dedo na boca e em outro lugar.


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Nenhuma mongolice! Que derrota!