segunda-feira, 17 de janeiro de 2005, by Tiago

Texto non-sense nº 1 googol (é 1 seguido de 100 zeros pra quem não sabe)

John era uma vírgula. Uma vírgula bem inútil, daquelas que quando a gente passa dificilmente para pra respirar. Ele vivia lá, entre duas palavras pequenas, numa frase subordinada no finzinho do parágrafo, como algum morador de favela, sonhando alto em vencer na vida. Mas John sonhava era com uma coisa: ser um ponto final. Era o sonho perfeito, ser o ponto final de um provérbio, daqueles que mudam a vida das pessoas, isso sim que era vida de pontuação. Mas John, a vírgula, se sentia imóvel em sua situação, incapaz de mover uma paica sequer para a esquerda ou para a direita, emprensado entre duas consoantes.
Um dia ele puxou assunto com a consoante da esquerda, um "r", minúsculo mas invocado, na tentativa de fazer amizade:
- Sabe, r...
- Quê?
- Nossa vida é difícil, não acha? Esquecidos aqui no meio dessa frase que todo mundo pula, e que quem lê nem nota a nossa presença...
Mais condescendente - Pois é...
- Diga, meu caro r, você também não sonha um dia em ser alguém na vida? Sei lá, um "R" maiúsculo, daqueles que as pessoas carregam orgulhosamente na fala, quase cuspindo catarro?
- Caramba, pois é....
- Pois é, eu tenho um sonho também... Eu quero um dia ser um ponto final. Um daqueles que termina uma daquelas frases magníficas que mudam as vidas das pessoas.
- Mas você sabe que isso é muito difícil, não sabe?
- Sei, sei... Vou precisar de muita ajuda.
- Pode contar comigo!
- Obrigado, r!
John, emocionado, pede que r lhe ajude jogando-o para fora da frase, para que com sorte atinja algum provérbio no parágrafo acima. Em duas horas, volta John, meio apagado, esbaforido e desesperado, ofegante contando o que aconteceu:
- Cara, cê não sabe onde que fui parar!
- Onde, John?
- Pô, fui parar no meio de uma palavra imensa! A palavra era tão grande que caí em cima de uma vogal e fui confundido com um acento, e veio uma borracha e quis me apagar! Daí a confusão comeu solta e as letras saíram batendo umas nas outras pra não serem apagadas junto, eu saí correndo e escapei por pouco de ser apagado por completo!

Nisso a letra s, a do lado direito, fofoqueira, ouvia tudo, e foi logo metendo o pitaco:
- Nossa menino! Você não pode ficar por aí por essas frases esquisitas não, essas letras são muito mal-encaradas pro meu gosto! Sabe, eu ouvi uma vez que elas mataram um acento circunflexo por pouquinha coisa!
- Caramba, é mesmo?
- É sim! Escuta, vou te fazer um favor. Vou fazer uns contatos e vou te colocar no caminho certo!
- Nossa, muito obrigado, letra s! A senhora é muito gente-fina!

E em meia hora, todo o parágrafo já sabia da história de John e de seu desejo de tornar-se um ponto final. As letras ficaram comovidas pela coragem da vírgula em admitir seu sonho, e resolveram achar uma frase daquelas de impacto para John poder realizar sua tão sonhada pontuação, e eis que ela estava pra justamente ser escrita!
Nisso um ponto-e-vírgula, com seu aspecto de ancião sapiente, interrompe a euforia de John, que estava prestes a partir para sua tão sonhada viagem para se tornar um ponto final num provérbio, e diz:
- John meu caro, você não sabe o que está prestes a fazer, você vai mudar o rumo de todo o texto!
- Claro que não, velhaco! Eu vou realizar meu sonho!
- Você acabou de selar o destino de milhares de letras...
- Me esquece! Vai viver tua vida insignificante de marcador de ítens!

A vírgula festejante embarca para seu tão sonhado papel, sendo arremessada com imensa força em direção à caneta do escritor, que no momento em que a vírgula atingiu a caneta, estava terminando de escrever a frase. A vírgula prontamente escorregou para a ponta da caneta, e se jogou logo após a última letra. Realizado, comemora sua realização, pulando e chorando, até que o escritor lê a frase que acabou de escrever e pega o isqueiro em seu bolso, e incinera os papéis que escreveu, pois notou que não sabe escrever porra nenhuma.


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Nenhuma mongolice! Que derrota!