segunda-feira, 13 de dezembro de 2004, by Fabricio Shsn

Texto Non-Sense N° 69


Qualquer hora do dia, qualquer dia do ano, lá estava a maldita velha portuguesa pendurada na janela prestando atenção na vida de seus semelhantes. Até mesmo as crianças não escapavam das garras da fofoqueira, que além de aloprar com a vida dos outros, odiava que a meninada jogasse bola na frente de sua casa. Todos os habitantes da pacata e tranqüila rua não viam a hora da velha empacotar, mas como diz o dito popular, vaso ruim não quebra. Por várias gerações a portuguesa fofoqueira tomou conta da rua, mas isso chegou ao fim quando uma nova família mudou-se para o bairro, mais precisamente para a frente da casa da velha coroca. Como era de se esperar, Dona Rosa (esse era o nome da criatura) ficou observando tudo o que se passava na vida de seus novos vizinhos. E por intermédio de seus olhos de coruja bisbilhoteira, acabou descobrindo que os novos habitantes eram um jovem casal de namorados. A fofoqueira - viúva e cheia de rugas – ficou horas olhando para a mudança que chegava, e mal sabia o que estava por vir.
Chegou a noite, e ela parou de bisbilhotar para ver sua novela mexicana favorita, sempre comendo um bolinho de bacalhau para acompanhar e relembrar os tempos lusitanos. Lá estava ela assistindo sua televisão, quando um barulho como o de um gemido de gato ecoou por toda a sala da fofoqueira. Curiosa como sempre, foi assumir seu posto: a janela. Olhou para o muro, para o quintal, nada de gato. Já ia sair da janela, quando ouviu o mesmo som. Intrigada, ela vestiu sua camisola de seda (que não a deixava nem um pouco sexy) e foi até a rua caçar o gato. Armada com um jarro de água na mão, fuçou nas latas de lixo e nas árvores, mas gato que era bom, nada. Parou por um momento e tentou se concentrar. Ouviu o gemido do gato de novo, e agora ela sabia que o gato estava na casa de seus novos vizinhos! Maluca como só, atravessou a rua, foi entrando pelo portão na casa dos vizinhos para reclamar, e então ela ouviu o gato gemendo e balbuciando algumas palavras! Aquilo assustou a velha. Nos seus 70 anos de fofoca, jamais viu um gato que pudesse falar. Saiu correndo dali, voltou pra casa e, como toda boa fofoqueira, pegou seu binóculo para observar melhor. Foi até a varanda do segundo andar do seu casarão, olhou pelas lentes do binóculo e ficou perplexa: que gato que nada, quem gemia era a menina que havia acabado de se mudar, que transava loucamente com seu namorado, que dava chicotadas na bunda da namorada, acorrentada na cama redonda. A fofoqueira jamais havia visto aquilo, e não conseguia tirar os olhos do binóculo. Após uma hora de sexo bizarro, finalmente o casal fogoso deitou-se para dormir. Dona Rosa não acreditava no que havia presenciado, e quando foi dormir, só conseguia pensar naquilo. No dia seguinte, a velha acordou com a campainha tocando. Com a cara mais amassada que de costume, foi abrir a porta, e ficou chocada ao dar de cara com a menina que havia levado chicotadas na bunda. Ela dizia ser a nova vizinha, e que precisava de um pouco de Maizena emprestada, pois havia se mudado a pouco tempo e ainda não havia feito compras. “Ora pois, só um minutinho”, disse a portuguesa, que foi até a cozinha pegar o produto. Quando trouxe a farinha, a velha não se agüentou de curiosidade:
-Sem querer me intrometer, mas pra que a Maizena?
-Bem, é pra fazer um bolo para meu namorado...
-Opá, não precisa mentir para mim. Eu sei que você quer Maizena pra acabar com assaduras!
A garota arregalou os olhos. Então a portuguesa continuou:
-Eu vi tudo ontem de noite, rapariga. Eu vi você e o rapaz...
-O que a senhora viu?
-Bem, eu vi, você sabe, vocês dois...
-Trepando loucamente?
-Isso, minha filha, exatamente isso.
-Somos jovens, gostamos disso.
-Ora pois, eu também gosto! Aliás, gostava, meu querido Manuel me deixou há alguns anos...
-E a senhora gostou de ficar olhando a gente ontem de noite?
Envergonhada, a velha pediu licença e fechou a porta. Pela primeira vez na vida ela arrependeu-se das fofocas. Passou o dia, a noite chegou, e os gemidos continuavam a ecoar pela vizinhança. Dona Rosa bem que tentou, mas não conseguiu evitar de olhar. E dessa vez o casal fazia amor no jardim, debaixo da árvore, onde a jovem sentava no colo do namorado. A portuguesa negaria, mas ela estava excitada vendo aquela cena. A fofoqueira observava atenta, e então percebeu que o casal estava fazendo sinais para que a velha juntasse à eles. Sem saber o que fazer, a velha saiu da janela e sentou no sofá, sem pensar em nada além dos vizinhos. Após alguns segundos de silêncio, a velha quase morre de susto quando o telefona toca. Tremendo que nem Muhamed Ali, ela atende:
-A... Alô?
-Dona Rosa, sou eu, sua vizinha da frente.
-Ai, minha filha, desculpa, eu juro que não olho nunca mais!
-Senhora, me escute... não estamos bravos com você. Meu namorado quer falar com você
-Ai Jesus...
-Alô? Dona Rosa, meu nome é Cláudio. Prazer em conhecê-la.
-Er... prazer...
-Prazer, é isso que queremos. Eu e minha namorada vimos que a senhora nos olhava enquanto, você sabe... fazíamos amor
-Meu filho, me perdoe, eu juro por Jesus Cristo que jamais...
-Escute, Dona Rosa, escute! Eu quero que você venha aqui agora e junte-se a nós, queremos fazer amor com a senhora.
-O quê?!
-Vamos Dona Rosa, eu sei que a senhora gostaria muito de experimentar, afinal, minha namorada contou que você está sozinha há muito tempo.
-Meu filho, não fale isso!
-O que foi? Vai dizer que a senhora não gostaria de fazer uma loucura de amor com um casal cheio de energia e vigor? Ande dona, venha cá, vamos fazer amor a noite inteira, como você nunca fez antes!
Respirando profundamente de desejo, a velha aceita. Entrou no banheiro, sentou-se no bidê, fez “aquele” chuveirinho pra tirar as teias de aranha, derramou perfume pelo corpo, enfiou uma camisola de seda e correu até a casa dos vizinhos tarados. A porta estava aberta. Vagarosamente, a fofoqueira entrou no ninho do amor onde finalmente tiraria o atraso. Olhou no quarto, ninguém. No banheiro, nada. Na cozinha, nada além de um chicote em cima da mesa. A velha rodou a casa toda, exceto a garagem. Com o frio da noite, o reumatismo agravou-se, e a velha cheia de dor foi rastejando-se até a garagem, onde encontrou o casal mandando ver dentro do carro. A velha chegou perto do vidro, e lá estava a moça peladinha, toda molhada com o suor do namorado. A fofoqueira tarada puxou a maçaneta, mas a porta estava trancada. Ela fez sinal para que abrissem. Os namorados olharam um para a cara do outro e riram, e a portuguesa ficou sem entender nada. O rapaz pegou um papel e começou a escrever, e a velha ficou intrigada, explodindo de prazer. A menina pegou o papel e botou perto da janela para a velha ler: “Quer transar com a gente?”. Fazendo cara de piedade, a velha fez sinal de que queria, muito! Então o rapaz pegou um papel menor e escreveu novamente. Dona Rosa já estava maluca, puxava a maçaneta, batia no vidro, levantava a camisola e esfregava as pelancas no vidro. Nisso, o rapaz começou a fazer sinal de negativo, e a moça, morrendo de rir, estendeu o outro papel no vidro. Cega como uma pedra, a velha aproximou-se da janela, e então pode ler: “Primeiro de Abril”


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Nenhuma mongolice! Que derrota!