quarta-feira, 4 de agosto de 2004, by Fabricio S.

Texto Non-Sense N° x²

Cortês. Audaz. Varonil. Épico. Assim era visto Tião do Caminhão, o único açougueiro de Abricó do Agreste. Almejado pelas mulheres, respeitado pelos homens e admirado pelas crianças, que tinham o sonho de tornarem-se açougueiros assim como seu herói. E todo santo dia, antes mesmo do sol despontar no horizonte, Tião entrava em seu velho e companheiro caminhão, e ia até a fazenda de Seu Totonho, o grande criador de gado da cidade. Como de costume, juntos tomavam o café da manhã preparado pelas criadas do fazendeiro, e iam para o pasto escolher o bovino mais apropriado para o abate. Espingarda na mão, boi morto no chão. Arregaçando as mangas de seus trapos sujos, Tião pegava o boi nas costas, sozinho, e depositava-o na caçamba de seu caminhão. E voltavam para o centro da cidade, vagarosamente, já que o motor do debilitado caminhão mal dava conta do serviço. Já em seu açougue, Tião cortava a carne cuidadosamente, separando os melhores filés para as madames da região, e sustentando os cachorrinhos de rua com o que não seria aproveitado para comércio. Tião do Caminhão realmente era uma alma muito boa, pensava mais nos outros do que em si mesmo. "Se eu posso comer, respirar e ajudar ao próximo, nada mais me interessa", dizia o sensato homem.

Anos de trabalho duro e caridade passaram-se, até que um dia o caminhão de Tião não agüentou mais o tranco e deixou-o na mão. O parrudo parecia não acreditar no que acontecera. Seu eterno companheiro, presente de seu falecido e querido pai, havia batido o motor. Naquele dia, a população viu uma cena que jamais esperava ver: Tião do Caminhão, o homem mais feliz da cidade, havia chorado de tristeza. Seu Totonho, comovido com a cena a qual presenciara, ficou com muita pena do amigo, e disse que lhe daria um caminhão novo. Surpreendentemente, Tião recusou: "Obrigado, meu amigo, mas nenhum caminhão suprirá a falta de meu velho e querido companheiro. Ele não é apenas um caminhão, é um pedaço de minha vida, é a única recordação que tenho de meu falecido papai." Com lágrimas nos olhos, Seu Totonho diz que faria o que fosse necessário para recuperar o motor do caminhão. Levou-o a todos os mecânicos da cidade, mas nenhum deles achava o problema, tudo parecia estar em ordem. Inconformado, Seu Totonho colocou o caminhão em seu avião e levou-o até São Paulo, onde há alguns dos melhores especialistas em motor do país. Mas o diagnóstico era o mesmo: o motor estava em ótimas condições, e nada de o caminhão ligar. Os mecânicos ficaram inconformados, e decidiram desmontar todo o caminhão. De nada adiantou. Seu Totonho não sabia como contar a verdade para seu amigo Tião ao voltar para a cidade. Vendo a cara de desilusão do fazendeiro, um faxineiro da oficina onde estavam sendo feitos os exames aproximou-se de Seu Totonho:
-Ele não tá ligando por nada, né?
-Não... tem alguma coisa errada com o caminhão.
-E não é nada mecânico, já vi um caso assim.
-Não é mecânico? É claro que é, isto é uma máquina.
-Aí que o senhor se engana... esse caminhão tá com problema emocional.
-(Risos) Era só o que me faltava...
-Com licença, deixe-me conversar com o caminhão.

E alí ficou o faxineiro, debruçado sobre o capô do caminhão, conversando com o caminhão. Após ter ouvido o caminhão, o faxineiro subiu na caçamba do caminhão com cuidado, contou 3 passos a partir da traseira e ficou pulando. Seu Totonho ficou parado olhando pra cena, ele não podia acreditar que o retardado estava fazendo aquilo. Depois de alguns pulos, o faxineiro desce, entra na cabine, vira a chave e... milagre! Estava o caminhão funcionando, fazendo um barulho que demonstrava força e jovialidade. O fazendeiro ficou admirado:
-Nossa, está funcionando mesmo!
-Pois é doutor, eu falei que ia dar um jeito.
-E então, qual era o problema? Tinha alguma peça solta por baixo da caçamba e com os pulos ajeitou né? Eu sabia que tinha algo errado!
-Bem, num foi isso não. Acontece que o caminhão estava com dor na caçamba, e essa dor foi causada por stress e rotina.
Seu Totonho ficou olhando pra cara do faxineiro, que manteve-se sério. O rei do gado não agüentou e dobrou-se de rir. O "médico" do caminhão retrucou:
-Ok, o senhor não é o primeiro que ri de mim... e não tentarei convencê-lo de que as máquinas têm sentimentos.
O faxineiro virou as costas e foi embora. Ainda rindo, o fazendeiro lhe fez uam proposta:
-Ô "doutor"! Volta aqui! Se você é mesmo mágico, conserta esse meu relógio de pulso!
O faxineiro voltou, pegou o relógio, levou até seu ouvido e depois falou:
-Eu sei que ele é arrogante, mas ele precisa de você. Dê uma chance à ele...
E nisso o relógio voltou a funcionar. Perplexo, seu Totonho não acreditava no que presenciava. O faxineiro falou com o fazendeiro:
-Olha, é melhor o senhor parar de bater o relógio na mesa, senão ele vai fazer greve de novo.
-Meu Deus do céu! Como é que você sabe disto?!
-O relógio me contou, oras. Ele acha o senhor meio arrogante. Seja mais carinhoso com ele...
-Rapaz, isso é incrível! Um milagre! Me diga, você já tem um empresário?
-Pra que isso, moço? Eu sou só um faxineiro!
-Nada disso. Eu serei seu empresário, e a partir de hoje você será conhecido como o "Curandeiro das Máquinas".
-Deixa de conversa, doutor...
-É sério! Ande, pegue suas coisas. Nós vamos nos mudar para Abricó do Agreste. Uma grande vida o espera!
-Bom, se o senhor tá dizendo...

E ao invés de voltarem de avião, decidiram voltar no caminhão de Tião, que andava como nunca. Durante a longa viagem, o fazendeiro e o curandeiro conversaram sobre o incrível poder de entender as máquinas, que ele jurava ser de nascença. Após dias rodando na estrada sem o caminhão ter apresentado problema algum, Seu Totonho chega perto da ponte que liga a estrada à cidade de Abricó do Agreste, onde uma grande festa os aguardava. No horizonte, o fazendeiro avistou Tião, aquele gigante cheio de músculos, chorando feito uma criança ao ver que seu mais que querido caminhão havia voltado a vida. Sem poder conter sua emoção, Tião foi correndo em direção do caminhão. Muito feliz, seu Totonho avançou com o caminhão ponte adentro, mas ela acabou cedendo e o caminhão despencou de uma altura de 50 metros, matando o fazendeiro, o milagreiro e posteriormente Tião, que jogou-se em cima do caminhão e morreu com a antena do rádio encravada no peito. Mas mesmo com este final trágico, João do Caminhão e Seu Totonho são lembrados na cidade até hoje, já que os destroços de metal do caminhão foram usados para criar excelentes latas de sardinha.


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Nenhuma mongolice! Que derrota!