quarta-feira, 21 de julho de 2004, by Fabricio S.

Texto Non-Sense n° Un, dos, tres, un pasito pa'lante Maria! Un, dos, tres, un pasito pa'atras!

Era apenas mais uma senhora de idade como as outras: cabelos brancos semi-tingidos, rugas cobrindo o rosto, sutiãs brigando contra a poderosa lei da gravidade. Tinha uma vida feliz, pois possuia família, netos que a amavam, e sua aposentadoria, que por menor que fosse, era suficiente para sustentá-la. Mas a maldição que apossaria sua vida começou quando um de seus filhos resouveu presenteá-la com um computador. No começo Vovó Tinda, como era chamada pelos netos, mal sabia ligá-lo. Mas com muita paciência e dedicação dos netos, ela aprendeu a lidar com o computador. E a cada mês que prosseguia, a vovó passava mais e mais horas em frente à telinha, ainda mais depois que instalou Internet banda-larga em sua casa. Tal fato vinha preocupando seus filhos, que tentaram convecê-la da importância dos hábitos que ela mantinha, como cozinhar, regar as plantas, cuidar da casa. Mas Vovó Tinda não lhes dava ouvidos. Comia na hora que podia se levantar do computador, deixava suas plantas secarem, e trocava a noite pelo dia para poder conversar com os raríssimos amigos de sua idade que ficavam online. Até aí, não seria nada mais do que uma senhora da terceira idade metida à nerd adolescente.

Mas a desgraça de verdade veio quando a vovó descobriu um novo site, chamado Fotolog. Fascinada com a idéia do site, ela deixou de comprar seus remédios para adquirir uma câmera digital. E assim o fez, mesmo tendo que passar por quatro ameaças de infarto naquele mês. Vovó Tinda ficou pasma quando viu que uma pessoa comentou em sua foto, dizendo que era "uma foto pura e linda", e que havia adicionado a velhota em sua lista de amigos. Em questão de dias, a vovó tinha mais de 100 amigos, e acabou tornando-se muito conhecida na comunidade dos chamados "floggers". Àquela altura, a família já não conhecia mais aquela senhora tão amável, que agora só obrigava os netos a tirarem fotos junto dela, com o intuito de ficar cada vez mais famosa por ser uma pessoa "carinhosa e familiar". Infelizmente Vovó Tinda fascinava a todos com sua falsa interpretação fotográfica da realidade.

A situação estava tornando-se lastimável. Com o afastamento da família e a rebeldia dos netos frente à não mais querida vovó, a velhota passou a subordinar crianças para tirarem fotos com ela. Isso mesmo, a miserável ia até escolas e comprava chocolates para as crianças que tirassem fotos com ela. E os amigos do Fotolog da vovó achando aquilo maravilhoso, sem saber do artifício sujo utilizado pela velhota malevolente. Dizem as más línguas que Vovó Tinda não dava o chocolate e ainda batia na cabeça das crianças que faziam careta nas fotos. Maldita.

A vovó nerd tinha um dos Fotologs mais visitados do Brasil, e ela se orgulhava muito disso, pois este era o motivo que dava forças à idosa para continuar vivendo, já que sua afastada família não mais proporcionava prazer, e ela nem fazia questão da presença deles. Por meses Vovó Tinda reinou na Internet. Mas seu império estava prestes a desmoronar. Uma pessoa, que não quis identificar-se, tirou fotos secretas da velhota batendo nas crianças, e criou um Fotolog apenas para exibir a crueldade praticada pela velha. Como toda notícia ruim se espalha depressa, logo os amigos de Vovó Tinda descobriram a verdade por trás de suas fotos "cheias de bondade". Os comentários maldosos começaram a se multiplicar, fato que começou a deixar a velhota histérica. Por diversas vezes contactou os donos do Fotolog, exigindo que o Fotolog de seu delator fosse fechado. Mas nada eles podiam fazer, até porque, as fotos eram reais. A fama de Vovó Tinda desmoronava, ao mesmo tempo que ela enlouquecia. Por mais fotos e justificativas que desse, seu número de amigos caia, até ao ponto que ela ficou sem amigo nenhum. Foi o caos para a velha, que correu para os braços de sua família, que não exaltou-se em fechar a porta em sua cara, já que todos sabiam das notícias, que tomaram um âmbito nacional e foram parar na TV.

Se ela ainda tivesse alguém que acreditasse nela, que fosse seu amigo, mas não tinha ninguém. Desiludida e desamparada, Vovó Tinda vendeu seu computador e comprou drogas. Quem diria, a vovó doce a amável agora injetava, cheirava e fumava. Após meses de muita "onda" e sofrimento, a velha não tinha mais dinheiro para sustentar seu vício, e decidiu dar um fim à sua vida. Foi andando pelo acostamento de uma estrada na alta madrugada, esperando ter coragem para jogar-se na frente do primeiro caminhão que aparecesse. Passaram-se cerca de dois kilometros, e Vovó Tinda estava decidida a suicidar-se. No momento que ia jogar-se, ouviu uma voz gritar:
-"Vovó Tinda! Vovó Tinda!"
Perplexa, a velhota ficou procurando ao seu redor, tentando descobrir de onde vinha aquela voz, que voltou a gritar:
-"Vovó, eu acredito na senhora! Não acredito que a senhora bata nas crianças, aquilo deve ser montagem! Não sei se devia dizer isso, mas eu sou fã da senhora! Por favor, não se mate!"
A velhota, muito feliz, grita:
-"Cadê você?!"
-"Aqui, do outro lado da estrada! Venha cá, vovó!"
Radiante de alegria, a velhota atravessou a pista, quando uma Scania atropelou um sujeito que estava prestes a entrar em um Porsche vermelho. O corpo do sujeito veio voando na direção da velhota, atingiu-a com muita força e acabou matou-a.

* Qualquer semelhança terá sido mera coincidência, hohohoho... 



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Nenhuma mongolice! Que derrota!